O fim do problema da produtividade?
Em Portugal, estamos muito focados no tema da produtividade. O que faz sentido, de acordo com o mindset e a realidade do século XX e do início do século XXI. A economia portuguesa continua a crescer abaixo do desejável. Porém, estamos a assistir a uma revolução em todo o mundo, que vai ter impactos profundos na produtividade do trabalho. A inteligência artificial ir, provavelmente, resolver esse problema. E talvez o grande desafio do futuro já não seja como acelerar o crescimento económico por via do aumento da produtividade, uma vez que essa questão poderá tornar-se progressivamente irrelevante, mas sim como preservar a nossa humanidade e manter sociedades coesas num contexto de abundância tecnológica.
Durante mais de dois séculos, a produtividade constituiu uma das principais preocupações económicas das sociedades desenvolvidas. A prosperidade das nações passou a ser medida pela sua capacidade de produzir mais bens e serviços com menos recursos. A história da industrialização, da mecanização, da eletrificação e da digitalização foi uma sucessão de saltos de produtividade.
Portugal e a Europa continuam naturalmente prisioneiros desta lógica. O debate público é dominado por conceitos como competitividade, crescimento económico, inovação, qualificação dos recursos humanos e produtividade do trabalho. E compreende-se que assim seja. Durante décadas, a diferença entre países mais ricos e mais pobres esteve intimamente associada à capacidade de produzir mais valor por hora trabalhada. O debate político continua assente nesta lógica, com a legislação laboral a servir de principal linha divisória entre esquerda e direita, juntamente com o papel do Estado na economia e na sociedade.
Porém, a revolução da inteligência artificial poderá alterar profundamente os pressupostos deste debate sobre produtividade, legislação laboral e crescimento económico.
Pela primeira vez na História, uma tecnologia não se limita a amplificar a força física do ser humano ou a automatizar tarefas repetitivas. Ela começa a reproduzir e a ampliar capacidades cognitivas que até agora eram consideradas exclusivamente humanas: analisar informação, redigir textos, programar, criar imagens, interpretar dados, apoiar decisões e executar uma vasta gama de tarefas intelectuais, bem como executar tarefas manuais em diversas atividades. Poderá mesmo ultrapassar-nos a todos os níveis, muito em breve, o que cria riscos para a própria sobrevivência da espécie humana (mas esta é outra discussão).
Se esta evolução prosseguir ao ritmo atual, a produtividade deixará gradualmente de depender do número de pessoas disponíveis para trabalhar ou do número de horas que cada uma consegue dedicar à sua atividade. A capacidade produtiva de indivíduos, empresas e países poderá crescer a uma velocidade sem precedentes. A profecia de Keynes sobre o “fim do problema económico“ poderá finalmente realizar-se, pelo menos em parte, se a geopolítica, os constrangimentos energéticos e o nível de consumo e as expectativas sociais o permitirem.
Neste contexto, insistir exclusivamente na produtividade poderá ser semelhante a discutir a escassez de iluminação poucos anos depois da generalização da eletricidade. A questão não desaparece totalmente, mas deixa de ser o problema central. O centro da discussão vai deslocar-se inevitavelmente para outras dimensões e, com isso, também a distinção entre esquerda e direita sofrerá alterações.
A primeira dimensão diz respeito à distribuição dos benefícios gerados por esta nova abundância. A História demonstra que os ganhos tecnológicos não são automaticamente distribuídos de forma equilibrada. Pelo contrário, tendem inicialmente a concentrar riqueza e poder. Uma sociedade altamente produtiva poderá coexistir com elevados níveis de desigualdade se não forem criados mecanismos capazes de assegurar que os ganhos da automação beneficiam a generalidade dos cidadãos, sobretudo se muitos milhões de pessoas perderem o emprego devido à adoção desta tecnologia.
Mas, por muito relevante que seja esta primeira dimensão, a segunda é talvez ainda mais importante: a questão do propósito.
Ao longo dos séculos, o trabalho não foi apenas um meio de subsistência. Constituiu uma das principais fontes de identidade individual e integração social. As pessoas não se limitam a exercer uma profissão; muitas vezes definem-se através dela. O trabalho organiza o quotidiano, cria rotinas, gera relações humanas, produz reconhecimento social e oferece um sentimento de utilidade.
Se uma parte significativa dessas funções deixar de depender da atividade económica tradicional, surgirá uma questão inédita: como encontrar significado numa sociedade onde o trabalho deixou de ser o eixo central da vida coletiva? Esta não é uma pergunta económica. É uma pergunta filosófica, cultural e civilizacional.
Uma sociedade onde a tecnologia assegura a maior parte da produção pode ser extraordinariamente eficiente e simultaneamente profundamente desorientada. A abundância de bens e serviços não garante, por si só, felicidade, realização pessoal ou coesão social. Aliás, existe o risco de que a perda de propósito coletivo se torne um dos maiores desafios do século XXI, com consequências imprevisíveis no plano civilizacional.
É igualmente possível que algumas atividades atualmente consideradas secundárias assumam uma importância crescente. O cuidado aos mais vulneráveis, a educação, a participação comunitária, a cultura, o voluntariado, a criação artística, a ciência, o desporto e a preservação do património poderão ganhar uma centralidade que hoje lhes é frequentemente negada por critérios estritamente económicos.
Talvez estejamos a aproximar-nos de uma sociedade onde o valor de uma pessoa não seja medido sobretudo pela sua capacidade de produzir, mas pela sua capacidade de cuidar, criar, ensinar, inspirar e participar.
Neste contexto, a Europa poderá possuir uma vantagem cultural inesperada. Apesar das suas fragilidades económicas e demográficas, continua a valorizar conceitos como dignidade humana, solidariedade, Estado social, qualidade de vida, património cultural e participação cívica. Características que muitas vezes são encaradas como entraves à competitividade podem revelar-se ativos decisivos numa era em que a eficiência produtiva é assegurada pelas máquinas.
O verdadeiro desafio das próximas décadas poderá, portanto, não ser tecnológico, mas sim humano.
A inteligência artificial tem potencial para resolver muitos dos problemas associados à produtividade. O que permanece em aberto é saber se conseguiremos utilizar essa abundância para construir sociedades mais livres, mais equilibradas e mais humanas.
A grande questão do futuro talvez não seja como produzir mais. A grande questão do futuro poderá ser como continuar a viver juntos, encontrar significado coletivo e preservar aquilo que nos torna verdadeiramente humanos num mundo onde a produção deixou de ser o principal problema.
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